Ecológico e certificado

Na hora de comprar uma geladeira, cabra - sileiros sabem que aquele adesivo com faixas coloridas sobre a capacidade de economia energética do aparelho vai fazer toda a diferença no orçamento. Então, por que não é assim também com um imóvel? A possibilidade existe. Por exemplo, o Programa Brasileiro de Etiquetagem do Inmetro (PBE) classifica edificações de "A" a "E" quanto à eficiência energética, sendo "A" o nível mais alto. E também existem vários outros selos dedicados à sustentabilidade das instalações. Por outro lado, ainda há uma carência na oferta de endereços com essas qualificações, movimento que caminha a passos lentos no Brasil. Até o mês passado, o PBE contabilizava 3.256 etiquetas essa todo o Brasil, sendo 3.099 na área residencial e 157 em prédios comerciais e de serviços. Para especialistas, ainda é pouco. Mas o responsável pelo programa, Marcos Borges, considera um caminho natural, se levada em consideração a complexidade do programa e o tamanho do país.

— A ferramenta, por si só, não garante o sucesso. Precisa ser aplicada como política pública. O governo federal já adotou-a como critério obrigatório na construção e na reforma de prédios da administração pública federal. Isso também pode ser feito pelas prefeituras — sugere, acrescentando que a redução de impostos para esses imóveis também seria um incentivo. Para receber a etiqueta do Inmetro, as edificações novas passam por uma avaliação do projeto quanto ao nível de eficiência apresentado. Posteriormente, é verificada a fidelidade do edifício construído ao que foi proposto. As construções são avaliadas em três sistemas: envoltória, sistema de iluminação e sistema de condicionamento de ar, com um melhor aproveitamento das chamadas energias passivas (iluminação e "O cliente está mais atento à sustentabilidade. Ele sabe que faz bem para o bolso, porque vai gastar menos água e energia" Nilson Sartl Presidente da Comissão de Meio Ambiente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção ventilação naturais) e incentivo ao uso racional de água e energia solar. O primeiro edifício a receber a etiqueta "A" em eficiência energética no PBE pelo sistema de aquecimento de água no Brasil será inaugurado em novembro, em Niterói. Nele, as 50 unidades terão água aquecida a gás LP (de cozinha) em todas as duchas para banho e nas torneiras da cozinha e dos banheiros. No desempenho geral, o projeto da Essence obteve a etiqueta de nível "B". Com essa classificação, estima-se que o imóvel tenha uma redução de 30% a 50% no consumo elétrico. — Além do sistema de aquecimento, o projeto também reúne aspectos como uso de pastilhas capazes de absorver e reter men. calor para aliviar a refrigeração, aproveitamento máximo da luminosidade e vento naturais, além de sistema de reuso de água — lista o engenheiro responsável Marcelo Barrozo. — Utilizamos todo o escopo que possibilita essa eficiência energética. Ao contrário do que muitos pensam, não é uma obra complexa.

SUSTENTABILIDADE AFERIDA

Outro empreendimento que traz boas soluções rua solo fluminense é o Neolink Stay Apartments, que será inaugurado em agosto, na Barra da Tijuca. O empreendimento da Dominus Engenharia tem ventilação natural e aproveitamento de lurem sua raiz. Também tem economizadores em todas as torneiras e paisagismo com espécies nativas que necessitam de menos irrigação, além de recursos voltados para a captação de água da chuva. Para atestar tudo isso, a construtora optou pelo selo Aqua, uma certificação francesa de sustentabilidade temida ao Brasil pela Fundação Vanzolini.
— A certificação indica ao consumidor que ele terá sou retorno de sua escolha a longo prazo. Ele vai sentir a diferença nas contas de luz e de água, e rema garantia de que terá mais conforto no local escolhido para viver — diz a coordenadora de Gestão Ambiental e Sustentabilidade da Dominou, Patrícia Ramos. A certificação Aqua é pautada no alcance de 14 objetivos, que vão da utilização de um canteiro de obras com baixo impacto ambiental à relação com o entorno. Desde quando foi adaptada para a realidade brasileira, em 2008, foram. certificados 230 empreendimentos, 390 edifícios, oito bairros e uns porto. Segundo o responsável pela área de negócios da certificação no país, Bruno Casagrande, entre contratar uma consultoria para obter as soluções e adquirir a certificação, o gasto é de 1% a 3% do valor do empreendimento.
— Mas há pesquisas que falam numa valorização de até 13% do imóvel na hora da revenda
— afirma. — Temos, inclusive, investido na capacitação de corretor., para que possam destacar essas vantagens. Aqueles que assimilam isso conseguem vender melhor. A ONG Green Building Council Brasil também oferece serviços nessa linha: o selo LEED, para empreendimentos comerciais, eu Referencial Casa, exclusivo para residências. Segundo o diretor executivo do conselho no país, Felipe Faria, as principais demandas ainda partem do mercado de imóveis de alto padrão. Como ele acredita, a popularização virá a partir do momento em que as pessoas assimilarem o viés econômico por trás desses recursos.
—O principal custo de uma edificação não é a construção, mas a operação. Dentro de um ciclo de vida de até 50 .os, a ocupação corresponde a85% dos custos dessa edificação, sendo os outros 15% da construção. E é o ocupante quem arca com os gastos operacionais — ilustra, sobre . vantagens de viver em um imóvel que consome menos recursos. Para o presidente da Comissão de Meio Ambiente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção, Nilson Surti, o caminho para as certificações é irreversível. Só para citar fatos recentes, ele lembra que a crise hídrica, bem como o fato de a cadeia verde na construção ter sido pauta na COP-21, realizada no fim do ano passado em Paris, reforçam a necessidade dessa consciência.
—O cliente está mais atento à sustentabilidade. Ele sabe que faz bem para o bolso, pois vai gastar menos água e energia. Antigamente, ao comprar um apartamento, as pessoas não queriam saber nem quanto custara o condomínio. Hoje, já lançam um olhar mais à frente — observa Sarti. — O setor precisa ver isso como uma oportunidade, não como um problema. •

Fonte: O Globo

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