Vou-me embora para a Serra
 
Todo ano, o gerente comercial Lávinder Santos tem uma crise sobre a escolha de morar em Petrópolis, a cerca de 70 quilômetros do seu local de trabalho, no Centro do Rio:
- Geralmente, acontece após pegar engarrafamentos de até quatro horas em três dos cinco dias de uma mesma semana.
Quando algo assim ocorre (geralmente em dias de chuva forte ou feriadões), Santos chega a pesquisar apartamentos na capital fluminense. Mas aí a crise é resolvida...
 
- Moro num apartamento de dois quartos, com 90 metros quadrados, num prédio com sauna e piscina. Quando olho pela janela, só vejo verde. Imóveis do mesmo porte na Zona Sul seriam o triplo do aluguel de R$ 1.550 que pago em Petrópolis. Na Tijuca ou na Barra, gastaria o dobro. Só teria preço equivalente se fosse no Recreio. Mas aí gastaria o mesmo tempo de deslocamento que já levo da Serra ao Centro diariamente - contabiliza ele, munido da matemática da vida.
 
Nascido e criado em Petrópolis, Santos se mudou para o Rio aos 20 anos para terminar a faculdade . Começou a trabalhar na cidade em seguida e ficou mais três anos morando no Flamengo, até a proprietária pedir o aparatamento. Por pressão da namorada, que tem família em Petrópolis, juntou suas coisas, subiu a Serra, e hoje só volta à capital para trabalhar.
 
- Numa boa situação, consigo fazer o trajeto em uma hora e dez minutos. Mas, em geral, gasto duas horas, tanto para ir quanto para voltar. Acabei me acostumando a isso. Aproveito para cochilar, ler um livro ou estudar. Os ônibus que fazem essa linha são mais confortáveis do que muito avião - conta ele, que gasta uns R$ 800 por mês com o transporte. Na sexta-feira, rola até happy hour no trajeto: - Tem um ônibus fretado que sai do Centro, em que montamos até uma mesa de sueca no meio.
 
O gerente de recursos humanos Claudio Sismil também cruza as estradas da Serra diariamente. Ele morava em Freguesia e, há três anos, se mudou para Teresópolis com a mulher e os três filhos. Todos os dias, ele gasta cerca de três horas para ir e outras três para voltar. Pega um ônibus até a Cinelândia e outro de lá até Botafogo, onde trabalha. Na volta, a mesma coisa. Faz sentido?
 
- Tenho um aluguel e ótimas escolas para os meus filhos a preços menores que os do Rio - diz ele, que mora em um apartamento de 110m² e descreve um dia de sua rotina no quadro à direita. - Nos fins de semana, gosto de fazer tracking e passar o dia na Granja Comary com a família.
 
Sismil e Santos fazem parte de um grupo de pessoas que só faz crescer aos olhos de quem entende do assunto. Segundo o professor de MBA em Gestão de Negócios Imobiliários e Construção Civil da Fundação Getúlio Vargas, Paulo Porto, trata-se de um fenômeno originado na própria estrutura geográfica do Rio, uma cidade espremida entre as montanhas e o mar.
 
- Diferentemente de outras cidades, como São Paulo, que tem várias zonas de habitação, com inúmeros bairros onde se pode trabalhar e morar, o Rio é muito concentrado em algumas zonas. As pessoas, então, começaram a ir para Niterói, mas também ficou caro. Outra opção seriam localidades como Nova Iguaçu e Belford Roxo, o que implicaria no mesmo tempo de deslocamento que morar em Itaipava.
 
Porto destaca que essa movimentação tomou força nos últimos dois anos e deve ganhar cada vez mais adeptos pelos próximos três anos.
 
- A tendência de queda nos valores dos imóveis no Rio é pequena. Vai cair, mas pouco. E se havia uma tendência de aumento nos preços na Serra, eles se estabilizaram - responde.
 
Sócia-diretora da Bogoricin Prime, Consultoria de Vendas especializada em imóveis, Leila Bogoricin afirma que as imobiliárias estão de olho neste grupo. Segundo ela, já há condomínios que oferecem ônibus próprios, como já aconteceu na Barra da Tijuca.
 
CAMINHO MAIS CURTO
 
- Quem quer morar numa casa ou quer ter uma vida com menos violência está se mudando para Petrópolis ou Teresópolis. Mas tenho sentido uma mudança maior ainda para Petrópolis, Araras e Itaipava, porque existe a promessa da duplicação da estrada - diz ela.
 
Leila se refere às obras em curso que devem encurtar em 15 minutos o trajeto entre a Serra e a capital. O projeto da Concer concluirá o processo de modernização da BR-040 com a construção de um novo trecho de 20,7 quilômetros, que terá 15 quilômetros de duplicação da atual pista de descida e cerca de cinco quilômetros de túnel. A nova pista substituirá o trecho da atual subida da estrada Rio-Petrópolis, em operação desde 1928. A conclusão está prevista para o segundo semestre de 2017.
 
- Não é algo passageiro. É uma opção de vida. É como as pessoas que se mudaram para a Barra da Tijuca há 35 anos. Tinha gente que construía casa de férias por lá, mas acabou se mudando de vez - aposta Leila.